quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Natal dos Hospitais (parte 5)


Uma das imagens da época natalícia é o evento televisivo "Natal dos Hospitais". Já muito foi escrito, também aqui na Enciclopédia pelo Paulo Neto: "Natal dos Hospitais - Enciclopédia de Cromos". Actualmente, não tem o impacto de outros tempos, mas continua a ser uma tradição da televisão pública.

Consegui deitar a mão - literalmente - a umas gravações de uma emissão do final dos anos 80, mais concretamente o "Natal dos Hospitais 1987", uma gravação infelizmente incompleta e com vários problemas sonoros. Os apresentadores desta edição foram Alice Cruz e Eládio Clímaco, emitida numa  Terça-Feira, 22 de Dezembro de 1987, entre as 14:30 e 19:20, no "1º Programa", a RTP-1:
"Diário de Lisboa" Programação da Semana [18-12-1987]
Lembro-me bem de nesta época ter a TV ligada toda a tarde, na sala da casa de uma tia, com presépio, árvore de Natal e guloseimas em redor e aquela sensação de que já faltavam poucos dias para a abertura das prendas!

Este excertos da recta final da edição de 1987 do "Natal dos Hospitais" começam com a actuação de Paulo de Carvalho e o seu êxito "Mãe Negra".


Prelúdio (Mãe Negra) - Paulo de Carvalho - Natal dos Hospitais 1987:

Falo por mim e por muitos quando digo que o momento mais aguardado - para os mais novos também, além dos Onda Choc e Ministars - da maratona televisiva do Natal dos Hospitais era a actuação de Herman José. Neste ano Herman fez a sua entrada a cavalo, na boa tradição dos Monty Python, e depois da vénia à "realeza" da altura, na primeira fila, incluindo Amália Rodrigues e Maria Cavaco Silva; dispara as piadas, incluindo palavras pouco ouvidas na TV para referir o anús e encerra de forma dinâmica a cantar o super êxito "Bamos lá, cambada!", de 1986. Quando abordou essa canção na Enciclopédia, o artigo do Paulo Neto incluia um video da actuação no Natal dos Hospitais de 1990.



Herman José - Anedotas e Bamos Lá, Cambada - Natal dos Hospitais 1987:






"E finalmente" - anúncia Irene Cruz, pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras, o hino "Gloria in excelsis Deo" (Glória a Deus nas alturas), dirigido pela maestro César Batalha. No Youtube também está a versão do ano anterior.





Mas depois da tradicional actuação do coro mais famoso de Portugal, chega Fernando Pereira e sua imitação de "We Are The World", o hit global de 1985 do colectivo USA For Africa, criado por Michael Jackson e Lionel Ritchie e gravado com 45 artistas da cena musical norte-americana para angariar dinheiro para ajudar a combater a fome no continente africano. O Coro de Santo Amaro de Oeiras acompanha o ritmo. O som desta gravação está péssimo, foi o melhor que consegui gravar a partir de uma velha cassete VHS. 


Recorde todos os artigos do blog sobre este tema: "Natal dos Hospitais - Enciclopédia de Cromos".

O Natal dos Hospitais (parte 4)

por Paulo Neto



A época natalícia tem as suas tradições e hoje cumpre-se mais uma delas com a RTP a transmitir mais uma edição do "Natal dos Hospitais". A Enciclopédia de Cromos já dedicou três textos a este lendário certame (Ver aqui: Parte 1 - Parte 2 - Parte 3). E após dois anos de interregno, eis que chega a quarta parte.

A primeira edição do "Natal dos Hospitais", iniciativa do "Diário de Notícias" e da RDP, teve lugar em 1944. Entre os artistas presentes estiveram, como se vê na foto em baixo, Vasco Santana e Mirita Casimiro (a eterna Maria Papoila), então casados.

Foto: Centro de Estudos Portugueses


Em 1989, Catarina Furtado era uma jovem de 17 anos, finalista da Escola de Dança do Conservatório Nacional. No Natal dos Hospitais desse ano, longe de se imaginar que iria apresentar futuras edições do programa na RTP, marcou presença num número de dança coreografado por Jorge Trincheiras, ao som de "Adestes Fidelis" na voz de Luciano Pavarotti. Catarina é a segunda a entrar em palco, dançando com outros colegas do seu curso: Alexandra Pinto, Carla Pereira, Liliana Mendonça, Jorge Mira e Sandra Rosado. Reconheci esta última, a ruiva, do filme "Rasganço". 




António Ferrão, mais conhecido como Toy, exibia em 1990 uma espectacular mullet. Aqui ele interpretou "Mais E Mais", o tema com que concorreu ao Festival da Canção desse ano, tendo ficado em terceiro lugar e recebido o prémio de Melhor Interpretação. 





No Natal dos Hospitais de 1990, alguns artistas não se limitaram a actuar em palco, alguns também tomaram algum tempo para visitar os utentes internados no hospital que acolhia o programa. Foi o caso dos Da Vinci que cantaram "Nasci Em Portugal" e ao mesmo tempo vêem-se imagens da visita do grupo à ala pediátrica. Já agora, reconheceram a cantora do coro, vestida de vermelho? É Maria João Silveira, que viria a ser apresentadora da RTP, nomeadamente dos "Jogos Sem Fronteiras" de 1998 e dos blocos de notícias da RTP África, passando por uma perninha na representação na telenovela "Ajuste De Contas". 




Por estes vídeos do Natal dos Hospitais de 1990, recordei uma particularidade da edição desse ano. Cada artista que subiu ao palco entregou um boneco ou um brinquedo a uma assistente vestida de enfermeira para depois ser entregue às crianças internadas no hospital.
Enquanto isso temos uma Ruth Marlene de somente 15 anos, quando ainda não tinha lançado a moda do pisca-pisca nem castigava os rapazes à estalada, a cantar que gostava muito de estudar e mostrar do que é capaz. 



Como se pode ver nos títulos do vídeo, o Natal dos Hospitais de 1990 teve lugar no dia 21 de Dezembro. E eu de facto, recordo-me que na minha infância e pré-adolescência, o programa ia a poucos dias da Consoada, mas desde algures no anos 90, que passou a ser transmitido ainda na primeira quinzena do mês. 
E agora passamos para a actuação de Lena D'Água, um nome que dispensa apresentações, com "Já Não Sou Quem Era", um tema do álbum "Tu Aqui" onde Lena gravou temas inéditos de António Variações. O projecto Humanos também gravaria este tema para o seu álbum de tributo a Variações, com a interpretação a cargo de David Fonseca.


De 1991, eis Fernando Mendes (quando ainda só vestia no máximo o tamanho L), numa rábula de sedução com Rosa Villa, provando que uma frase pode exprimir várias sensações.



E para terminar, como não podia deixar de ser, Herman José no seu avatar José Estebes, acompanhado por Ana Bola e Vítor de Sousa, a cantar o imortal "Vamos Lá Cambada". A certa altura, outros artistas também surgem no palco e Herman aproveita para cantar excertos de outras canções deles como "O Anel de Noivado" dos Trio Odemira e "Trocas Baldrocas" de Cândida Branca-Flor. 
 



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fido Apresenta Número Um (1991)

por Paulo Neto



Ora voltamos a analisar mais um volume da série "Número 1" também mais conhecido como "Fido Dido", uma vez que vários dos volumes dessa série tinham na capa a simpática mascote da "7Up". Herdeira de outras séries de colectâneas de êxitos internacionais dos anos 80, como o "Jackpot" e o "Polystar", a série "Número 1" resultava numa colaboração entre três editoras - Sony Music, BMG e EMI-Valentim de Carvalho - reunindo os principais hits nacionais e internacionais de artistas destas editoras. Neste texto vamos analisar o alinhamento do primeiro volume da série, editado por ocasião da quadra natalícia de 1991 pela Sony Music, com direito a um spot publicitário.

Nesse ano, eu passei o Natal em casa de uns tios meus no Carregado, porque a minha mãe tinha na altura sido operada às varizes no Hospital de Santa Marta em Lisboa e não podendo fazer ainda uma deslocação para Torres Novas, foi autorizada pelos médicos a passar o Natal no Carregado. E quando cheguei ao Carregado, lembro-me de ver em evidência na sala um exemplar em vinil desta colectânea que os meus primos tinham comprado dias antes.
Mas quais eram então as 24 canções, distribuídas por 2 CD/LP/cassetes, que compunham esta compilação?
 
CD 1
1. "Burbujas de Amor" Juan Luis Guerra & 4:40: Já falámos aqui deste sucesso vindo da República Dominicana que fez parte da banda sonora do Verão português de 1991, na voz do rei do merengue Juan Luis Guerra. Mas só de há uns anos para cá é que me apercebi de todas as metáforas marotas contidas na letra.
2. "Night Calls" Joe Cocker: No próximo dia 22, faz três anos que Joe Cocker, dono de uma das mais inconfundíveis vozes, deixou este mundo. Nos idos de 1991, a sua carreira continuava com alguma prosperidade, tendo editado nesse ano o álbum "Night Calls", cuja faixa-título foi escrita por Jeff Lynne dos E.L.O.
3. "Learning To Fly" Tom Petty & The Heartbreakers: Falecido no passado mês de Outubro, Tom Petty é outro senhor que já não está entre nós. Em 1991, Petty e a sua banda The Heartbreakers lançou o álbum "Into The Great Wide Open", do qual se destacou o single "Learning To Fly", co-escrito por Jeff Lynne (outra vez ele).
4. "Foram Cardos, Foram Prosas" Ritual Tejo: Depois de terem ganho o concurso do Rock Rendez Vous em 1987 sob o nome de Easy Gents, os Ritual Tejo lançavam em 1991 o seu primeiro álbum "Perto de Deus", do qual se destacava esta versão de "Foram Cardos, Foram Prosas", originalmente gravado em 1981 por Manuela Moura Guedes (sim, ela já teve uma carreira musical!) e que apresentou o tema com letra de Miguel Esteves Cardoso a uma nova geração. Os Ritual Tejo viriam a conquistar mais algum sucesso nos anos seguintes, nomeadamente em 1996 com o hit "Nascer Outra Vez".
5. "Falling" Julee Cruise: Este é daqueles temas que toda a gente sabe reconhecer mas que poucos conseguem dizer qual o título ou o nome da intérprete. A hipnótica versão instrumental do tema, composto por Angelo Badalamenti, é indissociável da mítica série "Twin Peaks". (Sabiam que Portugal foi o segundo país europeu a transmitir a série, apenas depois do Reino Unido?) A série criada por David Lynch rapidamente ganhou estatuto de culto e por isso, impôs-se a edição do tema, incluindo uma versão cantada do tema, à qual foi dada o título de "Falling" e interpretada por Julee Cruise. (Sim, o nome dela é Julee e não Julie, como por vezes aparece escrito - e não, não é parente do Tom). Natural do estado de Iowa, Cruise era já uma regular colaboradora de Badalamenti e Lynch quando gravou aquele que viria ser o seu trabalho mais conhecido, embora a sua carreira seja bem activa há mais de três décadas (o seu álbum mais recente é de 2011). Em 2002, Julee Cruise regravou "Falling" que surgiu como faixa escondida do seu terceiro álbum.
6. "Step By Step" New Kids On The Block: Formados em Boston em 1984, sob a ideia do produtor Maurice Starr de formar uma versão caucasiana dos New Edition, os New Kids On The Block são considerados a primeira boyband nos moldes que se conhecem. O grupo formado por Jordan Knight, Jonathan Knight, Donnie Whalberg, Joey McIntyre e Danny Wood viveu o seu período áureo na transição dos anos 80 para a década de 90, com um punhado de hits globais, dos quais este "Step By Step" é um dos mais conhecidos. Após uma dissolução em 1994, os NKOTB têm actuado regularmente desde 2008.
7. "Innuendo" Queen: Foi a 24 de Novembro de 1991 que o inigualável Freddie Mercury deixou este mundo, vítima da SIDA, algo que tentou esconder até praticamente às vésperas do seu falecimento, embora já se notassem sinais de debilidade. Mas Mercury não foi embora sem deixar mais um marcante álbum dos Queen, "Innuendo" que incluía uma épica faixa-título de 6 minutos e meio, a fazer lembrar a mítica "Bohemian Rapsody". Para mim, pessoalmente, recordo sobretudo esta canção por anos mais tarde ser usada num anúncio ao whisky Ballantines.
8. "Fading Like A Flower (Everytime You Leave)" Roxette: Com o álbum "Joyride", o duo sueco continuava a sua fórmula de sucesso, alternando malhas de pop-rock como a faixa-título com grandes baladas como é o caso deste "Fading Like A Flower". Em 2005, uma versão dançável deste tema da autoria de Dancing DJs teve algum sucesso em vários países europeus. Não só os Roxette deram o seu aval a esta versão, como Marie Frederiksson marcou presença no respectivo videoclip.
9. "Wicked Game" Chris Isaak: Originalmente incluído no álbum de 1989 "Heart Shaped World", "Wicked Game" foi incluído na banda sonora do filme "Coração Selvagem", realizado por David Lynch. Consta que um director de uma rádio de Atlanta que era mega-fã de Lynch e passou regularmente o tema e o sucesso foi aumentando, até que o actor e cantor (e ex-pugilista) Chris Isaak viu-se finalmente nas luzes da ribalta. Claro está, houve outro grande motivo para o sucesso de "Wicked Game": o lendário videoclip rodado no Hawaii com Isaak em cenas tórridas com a modelo dinamarquesa Helena Christiansen (que foi logo promovida a top model). Na minha opinião, este continua a ser o videoclip mais sexy de sempre. Mesmo sem nunca mais repetir o sucesso de "Wicked Game" (a sua outra canção mais notória é "Baby Did A Bad Thing", da banda sonora do filme "Eyes Wide Shut" e de novo com outra top model no videoclip, Laetitia Casta), Chris Isaak continua bem activo tanto na sua carreira musical como na representação ("O Silêncio dos Inocentes", "O Pequeno Buda", "Tudo Por Um Sonho")
10. "Sadeness part 1" Enigma: Uma das principais memórias que eu tenho do Verão de 1991 é ir às antigas piscinas municipais de Torres Novas, onde inevitavelmente se ouvia tocar Enigma, ao ponto de eu achar que os funcionários das piscinas deixavam a tocar em loop o álbum "MCMX A.D." O projecto Enigma era liderado pelo alemão de origem romena Michael Cretu e a fórmula de juntar cantos gregorianos a uma batida dançável fez furor por todo o mundo, chegando ao n.º 1 dos tops de 24 países. Como se sabe, Cretu era então casada com a conhecida cantora pop Sandra e é ela que providenciava as sensuais frases em francês que se ouve em "Sadeness". Sim, o tema chama-se "Sadeness" e não "sadness", a palavra inglesa para tristeza, pois a letra questiona os desejos libidinosos do Marquês de Sade. 
11. "Move That Body" Technotronic: Primeiro single do segundo álbum do colectivo belga de dance-music Technotronic famoso por clássicos como "Pump Up The Jam" e "Get Up (Before The Night Is Over)". Este tema contava com a participação da cantora congolesa Reggie.
12. "All My Loving" Los Manolos: Numa altura que se fala da questão da Catalunha, eis um grupo catalão especializado na rumba catalã, os Los Manolos. Esta versão de um original dos Beatles é um dos seus maiores hits em Espanha, mas são sobretudo conhecidos pela sua versão de "Amigos Para Siempre".

CD2
1. "Losing My Religion" R.E.M.: Depois de terem atravessado os anos 80 como uma das bandas mais emblemáticas da cena alternativa americana, os R.E.M. atingiam em 1991 o sucesso global no mainstream com o álbum "Out Of Time" graças a dois singles fortíssimos: o saltitante "Shiny Happy People" e sobretudo "Losing My Religion", que me lembro de ouvir em todo o lado na altura: desde a rádio a colegas a cantarem lá na escola e até na rubrica "Fora de Casa" da RTP que indicava os filmes em cartazes nas salas de cinema de Lisboa e Porto. O título é uma expressão do Sul dos Estados Unidos que quer dizer "perder a paciência". Segundo a banda, o sucesso do tema surpreendeu-lhes porque a canção nem sequer tinha refrão! Igualmente célebre é o videoclip realizado por Tarsem Singh, cheio de recriações vivas de arte sacra, que ganhou o prémio MTV de Melhor Vídeo nesse ano.
2. "Something Got Me Started" Simply Red: Dono de uma das mais famosas melenas ruivas do mundo da música, Mick Hucknall e a sua banda Simply Red editavam em 1991 aquele que seria o seu álbum de maior sucesso"Stars" (ainda hoje está entre os 15 álbuns mais vendidos de sempre do Reino Unido). Este foi o primeiro single desse álbum, sem duvida uma das faixas mais dançáveis, e onde além de Hucknall, se pode ouvir proeminentemente a voz do teclista Fritz McIntyre. ("Yes I would!")
3. "Unbelievable" EMF: Acabaram por uma one-hit-wonder (ou pelo menos uma banda recordada por uma só canção) mas na altura os britânicos EMF (Epsom Mad Funkers) estavam em alta na altura com a sua vibrante mistura de rock alternativo com batidas electrónicas, que recusaram no mega-hit "Unbelievable", que chegou ao n.º 1 nos Estados Unidos. Os "Oh!" que se ouvem foram retirados de um número do comediante Andrew Dice Clay. À parte uma cover de "I'm A Believer" de 1995, os EMF nunca mais conseguiram repetir o sucesso inicial e terminaram em 1997. Reformaram-se em 2001 para um álbum de best of e uma nova digressão que passou pela Queima das Fitas de Coimbra (eu estava lá quando eles actuaram) mas que foi bruscamente interrompida devido à morte do baixista Zac Foley em Janeiro de 2002. A banda reuniu-se novamente entre 2007 e 2009 e tem actividade retomada desde 2012. Enquanto isso lá vão recebendo regularmente  alguns royalties pela utilização de "Unbelievable" em tudo desde filmes (como "Coyote Bar") a versões de outros artistas (como Tom Jones!) e até anúncios de hamburgers!
4. "Getting Away With It" Electronic: Electronic era o projecto em part-time de Bernard Sumner dos New Order e Johnny Marr, dos Smiths. E como se tal não bastasse, o seu primeiro álbum também teve a colaborações dos Pet Shop Boys e o resultado foi uma interessante combinação das sonoridades provenientes das três bandas. O álbum vendeu um milhão de cópias em todo o mundo e produziu alguns singles de sucesso como este "Getting Away With It". Sumner e Marr continuaram o projecto Eletronic por mais oito anos e dois álbuns. 
5. "Mundo de Aventuras" Ban: Uma das mais famosas bandas portuenses dos anos 80, os Ban eram liderados por João Loureiro. Sim, o presidente do Boavista e filho do Major Valentim Loureiro. (Aliás, o seu boneco do Contra-Informação chamava-se "O Ex-Vocalista dos Ban"). Mas a outra vocalista Ana Deus, que mais tarde integraria os Três Tristes Tigres, não o deixava brilhar sozinho.
Formados em 1983, o grupo editou três álbuns entre 1986 e 1991 e somou êxitos como "Irreal Social", "Dias Atlânticos" e este "Mundo de Aventuras", a faixa-título do terceiro álbum. No ano seguinte, João Loureiro e outros membros formariam uma nova banda, os Zero. Após uma breve reunião para promover o álbum best of "Num Filme Sempre Pop", os Ban dissolveram-se tendo regressado inesperadamente em 2010 com o álbum "Dansity". (Atenção à visão de João Loureiro em boxers no início do videoclip!)
6. "Hello Afrika" Dr. Alban: Quando em 1980, Alban Nwapa viajou da Nigéria para estudar medicina dentária na Suécia (daí que seja de facto um doutor), decerto que não imaginaria que anos mais tarde se tornaria uma estrela do eurodance. Mas foi isso que aconteceu com Dr. Alban que nesse ano lançava o seu primeiro álbum "Hello Afrika". Claro está, no ano seguinte obteve ainda mais sucesso com o álbum "One Love" graças a hits como "Sing Hallelujah" e aquela que viria a ser a sua canção-assinatura, "It's My Life". Dr. Alban continua a actuar e a editar material. Em 2014, participou na pré-selecção sueca para o Festival da Eurovisão. 
7. "Baila Me" Gipsy Kings: Sabiam que os Gipsy Kings são franceses (embora a grande maioria hispano-descendentes)? Depois de fazerem sucesso um pouco por todo o mundo com hits como "Bamboleo", "Djobi Djoba", "Bem Bem Maria" e sobretudo "Volare", eles estavam de volta com um novo álbum do qual se destacou este "Baila Me".
8. "Rush Rush" Paula Abdul: As gerações mais jovens conhecem-na como a jurada original do "American Idol", mas Paula Abdul foi uma estrela pop de grande sucesso entre finais dos anos 80 e princípios dos anos 90, onde somou hits como "Straight Up" ou "Opposites Attract" (famoso pelo videoclip do gato animado). Este "Rush Rush", o principal single do álbum "Spellbound", é o seu tema mais conhecido no território das baladas e continha um videoclip que recriava cenas do filme "Fúria de Viver" com Keanu Reeves a dar uma de James Dean. Recordo-me também de na altura os Ministars terem feito uma versão chamada "Bicho Bicho". 
9. "3 a.m. Eternal" KLF: Os KLF são considerados os grandes impulsionadores da cena electro-dance britânica que singraria nos anos seguintes graças a grupos como Prodigy e Chemical Brothers. Os dois mentores do projecto, Bill Drummond e Jimmy Cauty já tinham criado outros projectos, nomeadamente os Timelords que em 1988 chegaram ao n.º 1 do top britânico com uma faixa baseada no tema da série "Doctor Who". Entre 1990 e 1992, os KLF editaram seis singles de sucesso, dos quais se destacam este "3 a.m. Eternal" (n.º 1 no Reino Unido) e "Justified & Ancient", uma surpreendente mas bem agradável colaboração com a lenda da música country, Tammy Wynette. Os KLF terminaram abruptamente em 1992, durante os Brit Awards, com uma bizarra actuação de "3 a.m. Eternal" onde dispararam pólvora seca de uma metralhadora e mais tarde deixaram uma ovelha morta no local do afterparty. Porém, Drummond e Cauty prosseguiram desde então com outros projectos, não só musicais, mas também de artes plásticas e audiovisuais.     
10. "Promise Me" Beverly Craven: O mais famoso tema da cantora e compositora britânica Beverley Craven que se tornou rapidamente um clássico da baladaria dos anos 90. Em Portugal, o tema obteve sucesso renovado em 1995 quando Patrícia Antunes, uma concorrente da segunda edição do Chuva de Estrelas, interpretou esta canção, tendo chegado à final e nos anos seguintes, tornou-se um clássico do karaoke nacional e de programas de cantorias, como "Cantigas da Rua". 
11. "Se Eu Pudesse Um Dia..." Delfins: Confesso que não conhecia este tema dos Delfins, extraído do álbum de 1990 "Desalinhados" - até porque não está incluído no seu álbum best of, "O Caminho da Felicidade", um dos discos nacionais mais vendidos de sempre. O álbum "Desalinhados" continha a versão original de "Nasce Selvagem" que teria ainda mais sucesso em 1992 na versão dos Resistência. Em 1991, os Delfins já tinham a sua dose de grande sucesso na sua carreira mas decerto que não imaginavam que nos anos seguintes chegariam a um elevadíssimo patamar de fama, não só com o já referido álbum best of, mas também com os discos "Ser Maior - Uma História Natural" e "Saber A Mar". A banda de Miguel Ângelo continuaria até 2009, quando celebrou 25 anos de existência.   
12. "Have You Seen Her" MC Hammer: Os rappers também precisam de amor. Originalmente gravado em 1971 pelos Chi-Lites, "Have You Seen Her" foi versionada por MC Hammer, imortalizado pelo lendário "U Can't Touch This", mostrando o seu lado mais romântico. (E tal como João Loureiro, MC Hammer aparece em cuecas no início do videoclip!)

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Gam Gam" Mauro Pilato & Max Monti (1994)

por Paulo Neto

Nem só de memórias é feita a Enciclopédia de Cromos, mas também de algumas descobertas de sons e imagens de outros tempos ao vasculhar o vasto espaço cibernético. Foi o que aconteceu quando acedi a um canal de Youtube de um DJ italiano que publica vídeos com as suas 100 canções preferidas de um dado ano (à data, estão disponíveis tops de 1979 a 1995, mais 2016). Quando ele publicou a sua lista referente ao ano de 1994, no n.º 93 houve um tema que me chamou a atenção. Tratava-se de um tema de dança com um coro de crianças e quando mais descobri sobre ele, mais fiquei fascinado. Eu nunca tinha ouvido este tema antes, até porque o seu sucesso esteve basicamente limitado ao seu país de origem, a Itália. Trata-se de "Gam Gam", tema de 1994 dos DJ/produtores Mauro Pilato e Max Monti.


Em boa verdade, até não é dos mais bem produzidos temas da cena techno-house italiana dos anos 90, as batidas e os drops são algo básicos e convencionais para a altura, pelo que o grande trunfo é sem dúvida as vozes infantis que parecem conferir uma aura espiritual. E é ao descobrir mais sobre isso que as coisas ficam mais interessantes.

A língua em que canta o coro de crianças é hebraico e as palavras são retiradas do Salmo 23 da Bíblia, adaptado musicalmente por Elie Botbol e interpretado pelo coro infantil franco-israelita Chevatim

Gam-Gam-Gam Ki Elekh (Mesmo se eu caminhar)
Be-Beghe Tzalmavet (Pelo vale da escuridão)
Lo-Lo-Lo Ira Ra (Não temo nenhum mal)
Ki Atta Immadì (Por que Tu* estás sempre comigo)

Šivtekhà umišantekhà (Porque Tu serás minha bengala, meu apoio)
Hema-Hema yenahmuni (Contigo sinto-me tranquilo)

* Este"Tu" refere-se obviamente a Deus


E então, onde é que Pilato e Monti foram buscar a ideia de fazer um tema dance a partir de um coro infantil a cantar um salmo bíblico em hebraico? Literalmente ao filme italiano de 1993 "Jona che visse nella balena" (em português "Jonas que viveu na baleia", se bem que o título oficial em Portugal seja um rotundo e menos poético "Sobreviver Ao Nazismo") realizado por Roberto Faenza, baseado na biografia do escritor e físico holandês Jona Oberski que em criança viveu todos os horrores da segregação racial e dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, aos quais sobreviveu embora tendo perdido os seus pais. A música é do lendário Ennio Morricone.



"Gam Gam" é cantado numa cena de uma aula de música no campo de concentração, em que o pequeno Jona (Luke Petterson) confessa em voz-off que não conseguia cantar os cânticos ensinados porque não percebia as palavras em hebraico por isso por vezes improvisava relutantemente um playback a abrir e fechar a boca. E é precisamente esta cena que Mauro Pilato e Max Monti samplaram para o seu tema, incluindo a fala voz-off em italiano. 


"Gam Gam" não teve videoclip, existindo apenas esta algo bizarra actuação na televisiva italiana com um grupo de crianças a fazer playback.


A versão original de Elie Botbol tornou-se entretanto um dos mais famosos hinos das comunidades judaicas nas celebrações das memórias do Holocausto, durante o qual faleceram mais de um milhão e meio de crianças, ao passo que a versão dance de Pilato e Monti tem permanecido com uma espécie de clássico underground que teve um inesperado ressurgimento nos últimos tempos quando foi escolhida para a banda sonora do jogo "Pro Evolution Soccer 2017". Essa inclusão motivou uma vaga de novos remixes de "Gam Gam" este ano, como este de Joe Berté e Daniel Tek.




Já em 2003, o tema tinha remisturado por Gabriele Ponte, famoso por ser um dos membros dos Eiffel 65.



Max Monti (foto do Twitter)

Mauro Pilato (foto do Twitter)


Acima de tudo, a descoberta deste tema fez-me reflectir sobre o mundo nos anos 90, nos quais eu fiz a minha travessia da infância, adolescência e inícios da maioridade, e a comparação com o mundo actual. Nos tempos actuais do politicamente correcto, de fúrias cibernéticas e de gritos de indignação por dá-cá-aquela-palha, não duvido que se hoje alguém se lembrasse de fazer uma tema dance baseado num coro infantil a cantar uma passagem bíblica em hebraico, ainda para mais retirado de um filme sobre o Holocausto, haveriam de se levantar vozes a gritar um alegado desrespeito e ofensa às vítimas do Shoah.
Mas em 1994, não consta que tivessem havido muitas vozes indignadas com esta versão e devem ter sido muitos mais aqueles que dançaram entusiasticamente ao som dela nas discotecas italianas e além-fronteiras. Talvez porque na altura, mais do que infelizmente na actualidade, era mais fácil acreditar que a Humanidade tinha aprendido a lição e que os horrores do Shoah eram algo impossível de se repetir.

"Gam Gam" cantado pelo coro "Voci Liberi"


Versão de Ennio Morricone para o filme "Jona che visse nella balena"


Trailer do filme (versão dobrada em inglês)

domingo, 3 de dezembro de 2017

The Beastmaster (1982)


"The Beastmaster", "O Guerreiro Sagrado" em Portugal e o muito melhor "Senhor das Feras / O Príncipe Guerreiro" no Brasil. Estreou nos EUA a 20 de Agosto de 1982 e em Portugal só em 1 de Junho de 1984, (segundo o IMDB, só encontrei registo a partir da semana seguinte, em dois cinemas da capital) com classificação de 12 anos, idade de sobra para ver cadáveres empalados e marmelinhos ao léu.

A sinopse deste épico filmado na California é um mix da Jornada do herói ao estilo "Choque de Titãs" (1981) e "Conan e os Bárbaros" (1982), e as mitologias do mundo real que inspiraram estes filmes de fantasia. Aliás, "The Beastmaster" estreou alguns meses depois do ícone realizado por John Milius e ás vezes parece uma versão contrafeita do mesmo.


As parecenças não serão inocentes visto que a produção da famosa franquia Conan para imagem real foi demorada e só não estreou antes por recortes na violência feitos à ultima da hora. "The Beastmaster" é uma adaptação extremamente livre de "The Beast Master", um livro de ficção científica dos anos 50 que nem foi mencionado nos créditos, segundo a Wikipedia. 

Um poster mais fiel aos visuais da fita.



Resumindo, umas bruxas boazonas em bikini mas com cara de ameixa seca mutante têm a profecia que o filho por nascer do Rei Zed vai matar no futuro o maléfico sacerdote Maax e destruir a sua seita de fanáticos que adoram o deus Ar. Um dos seus enviados transfere o bebé do ventre da rainha para o ventre uma vaca e depois de fugir da cidade, retira a criança do animal e marca-o com um ferro em brasa. 





O sacrifício é interrompido por um aldeão que foge com o bebé e o cria como seu filho. 
Já adulto, Dar é o único sobrevivente da aldeia, massacrada pelos selvagens Jun, seguidores de Tulsa Doom, perdão, Maax. 



Parte então numa viagem rumo à cidade em busca de vingança. Graças aos seus poderes de comunicação com animais, Dar vai conquistando aliados na forma de uma águia (Sharak), um par de fuinhas ou furões (Kodo e Podo) e o tigre Ruh



Como qualquer jovem, mas todo bombado em esteróides (não vi nenhum ginásio na aldeia), a primeira coisa a fazer é ordenar a Kodo e Podo que roubem a roupa a uma escrava - Kiri - que se banhava no rio e depois tentar impressioná-la e viola-la. Um sábado à tarde, portanto. 

Obviamente além de se vingar dos Jun e de Maax, Dar agora tem também que libertar a escrava. E as tarefas ainda não acabaram...






Logo de arranque a banda sonora dos créditos - da autoria de Lee Holdridge - parece um mix da "Battlestar Galactica" clássica e Indiana Jones, uma impressão que se mantém ao longo da metragem.


Como do filme só conhecia  é praticamente o poster (muito  ao estilo de John  Carter de Marte) quase metade do filme estive à espera que surgisse a pantera negra do poster. Um tigre pintado de preto também serve.




Portanto, na falta do grande Eusébio, o Pantera Negra, a quota de diversidade foi preenchida por um individuo de alto índice de melanina, grande e musculoso que também corria pelo ecrã envergando a bela da tanga de cabedal fantasia-medieval, o actor John Amos ("Raízes"). Outra cara e voz familiar é a do vilão de serviço Maax, o actor Rip Torn ("Aeroplano II", "MIB - Homens de Negro").



O protagonista Marc Singer participou em vários episódios da série "The Beastmaster" de 1999 noutro papel. A investigar para este artigo reparei que a cara dele não me era estranha devido à sua participação como "Mike Donovan", um dos líderes da resistência humana nas séries mini-séries e série de "V". Várias vezes esperei que Dar, o personagem de Singer, erguesse a espada no ar, gritasse "Eu tenho o PODER!!" e cavalgasse o seu tigre qual He-Man de baixo orçamento.



A beldade da fita, Tanya Roberts, a escrava/ninja Kiri, andou desfilando em trajes menores por vários filmes, ou até sem trajes, como "Sheena, a Rainha da Selva" (1984). "The Beastmaster" foi realizado por Don Coscarelli, o artesão da saga de terror Phantasm.


A falta de química, as coreografias manhosas e actuações de qualidade duvidosa, levaram a que para mim os momentos mais emocionantes fossem as mortes dos animais. Qualquer contador de histórias que se preze já há muito aprendeu que podem mostrar a destruição e massacre de uma aldeia inteira, mulheres e crianças empaladas e queimadas just for fun, que o espectador só deita a lagrimita solitária se um animal queriducho for magoado pelos maus da fita, autorizando moralmente o protagonista a proceder a uma limpeza de sarampo geral até eliminar da face da terra a espécie dessa bandidagem.
Assim que terminei o visionamento, escrevi no Letterboxd que "The Beastmaster" é uma fita de "sword and sorcery" (espadas e feitiçaria) com muitas sequências patetas, compensadas por algumas cenas mais atrevidas.

Depois, dormi sobre o assunto e contextualizando a época e os meios, mesmo as cenas mais bizarras já me parecem fazer mais sentido, no universo da fita, e é de louvar a utilização de miniaturas! E devem ter gasto boa parte do orçamento a construir aquela pirâmide dos sacrifícios humanos e a miniatura da cidade.



Já disse que sou fã de miniaturas, por mais óbvias que sejam? E não faz mal a ninguém alguma violência gratuita. O que seria de um filme de vingança sem uma aldeia destruída para dar motivo ao protagonista?

Se eu tivesse visto isto em plenos anos 80 teria delirado e de certeza desgastado a fita VHS em certas cenas... É fácil perceber como se tornou um filme de culto no género, apesar do fraco retorno de bilheteira. Tornou-se um clássico exibido na TV e gerou duas sequelas; "Beastmaster 2: Through the Portal of Time" (1991) e "Beastmaster III: The Eye of Braxus" (1996) com Singer a repetir a personagem Dar; e uma série com 3 temporadas: "BeastMaster" (1999-2002).

Mini-texto por altura da estreia em Portugal, "uma aventura épica onde um musculoso herói combate as forças do mal numa terra lendária."
"Diário de Lisboa" [08-06-1984]
"Mais um filme ''culturista'', uma onda americana que em Portugal não tem feito grande sucesso."

Publicado originalmente no blog "Cine31 - The Beastmaster (1982)".

sábado, 25 de novembro de 2017

Retro TV - Per7ume


Depois de anos a esperar ingloriamente que o Nuno Markl lançasse alguma canção ao estilo do "Creci en los ochenta", finalmente em Portugal uma canção nostálgica (se excluirmos a que toca na RTP Memória) sobre a televisão das gerações dos anos 70 e 80, para quem ainda conheceu a TV a preto-e-branco e com apenas um canal, ou quando a emissão começava tarde e acabava cedo, porque no dia seguinte era dia de escola ou trabalho e quem imaginava que pessoas podiam querer ver TV depois da meia-noite e do Hino Nacional?
A canção é do banda portuense "Per7ume", que está em actividade desde 2007, e já coleccionaram êxitos como "Intervalo" ou "Mudo", e já no plano nostálgico participaram com a versão de "Versos de Amor" no álbum "Tributo a Carlos Paião".  O videoclip é divertido, intercalando imagens da banda tocando trajada ao estilo dos anos 60/70 com sequências dos membros do grupo a assistir numa moderna televisão aos programas que marcaram as décadas de 70 e 80.


O teledisco de "Retro TV":


É possível ver também uma versão ao vivo no site da RTP: "Per7ume - Retro TV".
Conseguiram captar todas as referências?

Gostava que mais artistas dedicassem trabalhos á cultura popular portuguesa das últimas décadas. Conto em breve traduzir aqui no blog o tema "Creci en los ochenta", que vai mais além da televisão dos anos 80. 

domingo, 19 de novembro de 2017

Festival da Eurovisão 1992

por Paulo Neto

Já passaram seis meses desde que o impensável aconteceu e Portugal finalmente venceu o Festival da Eurovisão. Enquanto os preparativos para a edição do próximo ano em Lisboa seguem a bom ritmo, nada como voltar a recordar uma edição passada do certame, a saber a que teve lugar há 25 anos atrás em 1992.



O 37.º Festival da Eurovisão decorreu a 9 de Maio de 1992. Em virtude da sua vitória no ano transacto, a Suécia recebia o certame pela terceira vez, e depois da capital Estocolmo em 1975 e de Gotemburgo em 1985, cabia agora Malmo acolher o evento no centro de exposições e convenções MalmoMassan. O palco tinha no meio uma espécie de barco viking.


A apresentação esteve a cargo de Lydia Capolicchio e Harald Treutiger. Foi também a segunda edição a ter uma mascote: um pássaro. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e Ana Zanatti foi a porta-voz dos votos de Portugal.

Além dos vinte e dois países que participaram em 1991, registou-se o regresso da Holanda, ausente no ano anterior, num total de 23 países participantes. No entanto, esta seria a última participação da Jugoslávia (que na altura já estava efectivamente reduzida às repúblicas da Sérvia e do Montenegro) sob esta designação.

Como é habitual, vamos ver as canções por ordem inversa à classificação:

Pave Maijanen (Finlândia)
Christer Bjorkman (Suécia)

E começamos com um país habituado à cauda da tabela, a Finlândia. Depois de ter feito coros para as canções finlandesas de 1982 e 1983, Pave Maijanen tinha agora oportunidade de mostrar o seu valor com "Yamma Yamma", que falava sobre as alegrias de ouvir música na rádio, com a letra mesmo a referir Frank Sinatra e John Lennon. Mas apesar do seu refrão repetitivo e pegadiço, a Finlândia não convenceu os júris europeus, e obteve somente quatro pontos, quedando-se no último lugar.
Já a Suécia não está lá muito habituada ao fundo da tabela, mas nesse ano santos da casa não fizeram milagres e o país anfitrião não foi além do penúltimo lugar com apenas 9 pontos. A balada "I morgon är en annan dag" ("amanhã é outro dia") foi interpretada por Christer Bjorkman, que desde 2002 exerce a função de supervisor do MelodiFestivalen, o equivalente sueco Festival da Canção. 


Marion Welter (Luxemburgo)
Morgane (Bélgica)


O Luxemburgo levou uma canção cantada em luxemburguês, "Sou fräi" ("tão livre") na voz de Marion Welter, acompanhada pelo grupo Kontinent. Recebeu 10 ponto de Malta, ficando-se pelo 21.º lugar.
A Bélgica apostou na jovem Morgane, de apenas 16 anos, para defender as suas cores cantando "Nous on veut des violons" ("nós queremos violinos"). A letra era uma espécie de manifesto contra o conceito de geração rasca, declarando que há muito mais sob o ar de indiferença desta juventude. Porém com 11 pontos, a Bélgica não foi além do 20.º lugar. Segundo a Wikipedia, após vários anos no anonimato durante os quais teve três filhos, Morgane regressou à música em 2009 via rock gótico.

Aylin Vatankos (Turquia)
Merethe Troan (Noruega)

Aylin Vatankos foi a intérprete da canção da Turquia, "Yaz Biti" ("o Verão acabou"), uma balada sobre amores de Verão. Ficou em 19.º lugar com 17 pontos.
"Visjoner" ("visões") foi a canção que representou a Noruega, uma tema bem animada marcado pela muito boa disposição da intérprete Merethe Troan, que deixou mesmo escapar uma gargalhada espontânea a meio da actuação. A Noruega ficaria em 18.º lugar com 23 pontos. Mais tarde, Merethe Troan fez carreira como "voice actress", sendo a voz da Belle noruguesa em "A Bela e O Monstro".

Dina (Portugal)
Wind (Alemanha)

E chegámos a canção de Portugal, que nesse ano ficou em 17.º lugar com 26 pontos (8 pontos de Israel e Alemanha, 5 da Jugoslávia, 2 de Grécia e Finlândia e 1 de Itália). Mas a canção é daquelas que toda a gente conhece, "Amor de Água Fresca", uma autêntica salada de frutas musical servida com letra de Rosa Lobato de Faria e a voz de Dina, que também compôs a música. Quem é que nunca cantou "Peguei, trinquei e meti-te na cesta/ Ris e dás-me a volta à cabeça /Vem cá, tenho sede./Quero o teu amor de água fresca"? (Até a própria J.K. Rowling declarou, após a vitória de Portugal na Eurovisão em Maio passado, que ainda hoje sabe este refrão de cor, que decerto terá aprendido quando a autora da saga "Harry Potter" dava aulas no Porto.) Igualmente inesquecível foi o videoclip desta canção em que Dina surgia como uma espécie de Carmen Miranda por entre cenas de Ricardo Carriço e Sofia Aparício num jogo de sedução.
"Amor de Água Fresca" foi o ponto alto da carreira da cantora nascida em Carregal do Sal sob o nome de Ondina Veloso, que também nos deu canções como "Há Sempre Música Entre Nós" e "Pérola Rosa Verde Limão Marfim". Infelizmente em 2016, Dina anunciou o fim da sua carreira devido a problemas de saúde. 
A Alemanha foi mais um país que apostava forte nesse ano mas que teve resultados aquém do esperado. E não era para menos, pois o grupo Wind já tinha representado o país em 1985 e 1987, tendo ficado em segundo lugar em ambas as ocasiões. No entanto, somente a vocalista Petra Scheeser e o percussionista Sami Kalifa foram os únicos membros de grupo a estar presentes nas três participações. Desta vez, levaram a balada "Traumen sind fur alle da" ("os sonhos são para todos") e tal como as canções alemãs dos dois anos anteriores, também aludia aos ventos de esperança na Alemanha reunificada. Mas ao contrário das outras duas prestações, desta vez os Wind não foram além do 16.º lugar com 27 pontos.

Daisy Auvray (Suíça)

Serafín Zubiri (Espanha)

A canção que representou a Suíça em Malmo não foi a vencedora nacional. A pré-selecção helvética tinha sido ganha pelo tema "Soleil, Soleil" interpretado por Géraldine Olivier. No entanto, foi descoberto que os autores da canção violaram as regras ao submeter a canção a concurso duas vezes: primeiro pela parte francófona onde não foi escolhida, depois pela parte alemã com a versão em alemão que ganhou a final nacional. Como tal, esse tema foi desclassificado e a canção que tinha ficado em segundo lugar "Mister Music Man", interpretada por Daisy Auvray, é que seguiu para a Suécia, obtendo o 15.º lugar com 32 pontos, incluindo um 12 da Islândia.
A Espanha foi o primeiro país a actuar, representada por Serafín Zubiri que assim se tornou o primeiro cantor invisual a participar no Festival da Eurovisão. A sua canção "Todo esto es la musica" obteve 37 pontos, o que lhe valeu o 14.º lugar. (Pessoalmente, acho que merecia um pouco mais). Serafín voltaria à Eurovisão em 2000.

Extra Nena (Jugoslávia)

Kenny Lübcke e Lotte Nilsson (Dinamarca)

Como já referi antes, em 1992, a Jugoslávia estava agora reduzida à Sérvia e ao Montenegro após as proclamações de independência das restantes repúblicas que, à excepção da Macedónia, foram feitas à custa de sangrentos conflitos, sobretudo na Bósnia-Herzegovina, que levaram a um embargo da ONU. Ainda assim, fez-se representar pela cantora folk sérvia Snezana Beric que respondia pelo espectacular nome artístico de Extra Nena, no tema "Ljubim te pesmama" ("eu beijo-te com canções") ficando em 13.º lugar com 44 pontos. Este território só regressaria à Eurovisão em 2004, já sob a designação de Sérvia & Montenegro. 
Volta e meia, a Dinamarca gosta de levar um dueto entre uma voz masculina e uma voz feminina  e foi isso que sucedeu em 1992, com este país a ser representada por Kenny Lübcke e Lotte Nilsson com o tema "Alt dem som ingen ser" ("o que mais ninguém vê"), que ficou em 12.º lugar com 47 pontos. Kenny Lübcke regressaria à Eurovisão como membro do coro em 1999, 2002 e 2005.

Evridiki (Chipre)

Tony Wegas (Áustria)

Chipre trouxe a proposta mais sensual da noite. Evridiki já tinha feito várias vezes nos coros de várias canções cipriotas mas estreava-se este ano como solista na Eurovisão com "Teriazoume" ("somos parecidos"). A actuação foi marcada por duas peripécias: um movimento brusco por parte de Evridiki fez abanar o suporte do microfone e o público, não se apercebendo que a canção tinha uma pausa silenciosa mesmo antes do fim, começou a aplaudir antes de tempo. Chipre ficou em 11.º lugar com 57 pontos.
A minha favorita pessoal do Festival desse ano foi a Áustria, que ficaria em 10.º lugar. "Zuhsammen geh'n" ("caminhar juntos") era uma romântica balada com música de Dieter Bohlen (sim, o dos Modern Talking) e interpretada por Tony Wegas. Obteve 63 pontos, incluindo um 12 da Irlanda. 
Mas existe um grande motivo que fez com que eu nunca tivesse esquecido esta canção. Na altura, ainda era habitual a RTP transmitir os videoclips das canções concorrentes após o Telejornal umas semanas antes do Festival. Pois recordo-me bem que durante esses blocos, de ver o videoclip da canção da Áustria que intercalava planos de Tony Wegas a fazer playback da canção com cenas em que um casal de actores protagonizava cenas de erotismo softcore, algumas das quais dignas das "50 Sombras de Grey". Nada de super vulgar mas ainda assim era sem dúvida das coisas mais puxadas que o meu eu de 12 anos tinha visto até então na televisão. Tony Wegas voltou a representar a Áustria no ano seguinte.  


Humphrey Campbell (Holanda)

Kali (França)

Ausente no ano anterior, a Holanda regressou à Eurovisão e foi este país que encerrou o desfile das canções com "Wijs me de weg" ("mostra-me o caminho"), interpretado por Humphrey Campbell, cantor natural do Suriname. Como tal, o tema continha matizes de sonoridades caribenhas e também de r&b. Campbell interpretou este tema em coreografia com os seus irmãos Carlo e Ben e deu aos Países Baixos o nono lugar com 67 pontos.
Os sons das Caraíbas também estiveram bem presentes na canção da França, representada por Jean-Marc Monnerville, de nome artístico Kali, artista oriundo da ilha de Martinica. Como tal o tema "Monté lá rivié" ("sobe o rio") era interpretado em francês e crioulo franco-caribenho. Ficou no 8.º lugar com 73 pontos.

Heart 2 Heart (Islândia)
Dafna Dekel (Israel)

A Islândia trouxe um dos temas mais animados, "Nei eda já" ("não ou sim") do grupo Heart 2 Heart, que ficou em sétimo lugar com 80 pontos. Curiosamente dois dos elementos do grupo, Sigga Beinteinsdottir e Gretar Orvasson tinham representado este país dois anos antes como o duo Stjornin e tinham obtido o melhor resultado islandês até então, um quarto lugar, pelo que havia esperanças de conseguirem ainda melhor em 1992. Sigga voltaria a representar a Islândia dois anos depois, desta vez a solo. 
Igualmente animada foi a canção que representou Israel, "Ze rak sport" ("é só desporto") que com os seus ritmos latinos, bem que podia passar por uma música espanhola não fosse interpretada na língua hebraica por Dafna Dekel. Israel ficou em sexto lugar com 85 pontos. Dafna viria a apresentar o Festival da Eurovisão de 1999 em Jerusalém. 

Cleopatra (Grécia)
Mia Martini (Itália)

Cleopatra Pantazi foi a representante da Grécia, que nesse ano conseguiu igualar o melhor resultado desse país até à altura, um quinto lugar com 94 pontos. O tema "Olou tu kosmo i elpida" ("a esperança de todo o mundo") reflectia sobre a incerteza do mundo moderno e era inspirada pelo facto de nesse ano decorrer no Brasil a primeira grande cimeira internacional sobre as questões ecológicas que o mundo atravessava. 
Mia Martini (nome verdadeiro Domenica Berté) já tinha representado a Itália quinze anos antes com o tema disco-pop "Libera". Desta feita, ela trazia uma canção bem diferente, "Rapsodia", cuja letra falava sobre o reencontro de dois velhos amantes. Recordo-me que o Paulo de 1992 não gostou lá muito da interpretação de Mia Martini (parecia-me que lhe estava a doer qualquer coisa), mas o Paulo de 2017 já tem maturidade suficiente para apreciar a imensa qualidade desta canção e o sentimento impresso na voz da intérprete. A Itália ficou em quarto lugar com 111 pontos. Infelizmente, Mia Martini faleceu três anos mais tarde. 

Mary Spiteri (Malta)

Regressado a Eurovisão no ano anterior após dezasseis anos de ausência, o pequeno arquipélago de Malta obteve em 1992 o seu melhor resultado até então, ao conseguir o terceiro lugar com 123 pontos (incluindo 12 de Portugal). O tema "Little Child" foi defendido por Mary Spiteri. Durante um segmento do Festival da Eurovisão de 2014, esta canção foi referida como sendo aquela com a nota mais longa aguentada por um cantor no evento (13 segundos).

Michael Ball (Reino Unido)
   
O Reino Unido ficou em segundo lugar (139 pontos) com o tema "One Step Out Of Time", interpretado por Michael Ball, naquele que é o mais notória incursão na música pop desta grande vedeta dos musicais do West End londrino. O Reino Unido ficava assim com a medalha de prata pela 12.ª vez. 

Linda Martin (Irlanda)

Mas a vitória acabou por ir para a Irlanda, que assim vencia o Festival pela quarta vez. Linda Martin esteve muito perto da vitória oito anos quando obteve o segundo lugar na edição de 1984 com "Terminal 3". Mas à segunda, o triunfo (com 155 pontos) não lhe escapou, interpretando a balada "Why me", que foi escrita por nada menos que Johnny Logan, vencedor do Festival da Eurovisão por duas vezes em 1980 e 1987, provando que não há duas sem três.  


Festival da Eurovisão 1992 (comentários da BBC):

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